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Mayo 2016

Desafios da esquerda frente ao novo bloco de poder


Hamilton Octavio de Souza

Embora boa parte das forças políticas que se articula para dar sustentação ao governo de transição de Michel Temer, do PMDB, tenha participado intensamente do governo Dilma Rousseff, do PT, a nova composição formada no processo de impeachment, reforçada com PSDB, DEM, PPS e outras siglas, cria uma situação nova para a oposição de esquerda, já que o novo bloco de poder, com forte conteúdo conservador e neoliberal, tende a agredir direitos e conquistas dos trabalhadores, reduzir ainda mais o papel moderador do Estado e impor medidas imediatas para agradar os interesses gerais do mercado e do capital.

Nas gestões de Lula e Dilma os partidos de centro e de direita integraram a ampla coalizão concebida pelo PT, que incluiu no campo partidário desde o PCdoB até o PP de Paulo Maluf e o PRB do bispo Edir Macedo. Essa esdrúxula coalizão conseguiu colocar no mesmo balaio – durante anos – o MST e a representante do latifúndio e do agronegócio Kátia Abreu; a CUT e a FIESP de Paulo Skaf; o MTST e o ministro das Cidades, Gilberto Kassab, do PSD; os movimentos católicos remanescentes da Teologia da Libertação e os representantes do fundamentalismo evangélico abrigados no PR e no PSC; enfim, o país engoliu uma enorme babel de gregos e troianos preocupada exclusivamente com a própria sustentabilidade do governo federal.

Agora o quadro é outro: a não ser que ocorram dissensões de última hora, o bloco de poder unifica praticamente todos os partidos de centro e de direita, reúne os vários setores do empresariado e a grande maioria das classes médias, além de segmentos populares representados pelos partidos e organizações dominados por grupos cristãos e igrejas evangélicas. O PT e o PCdoB, depois de 13 anos e cinco meses de acomodação na máquina federal e de convivência com a direita, foram atirados à planície da oposição, junto com desgarrados do PDT e do PSB, e onde estão o decano PSOL, o novato REDE e os partidos da esquerda socialista sem representação no Congresso Nacional, entre os quais PSTU, PCB e PCO.

Além de ter unificado o bloco partidário conservador de centro-direita, o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff unificou majoritariamente também as forças do capital, em especial o empresariado industrial, agronegócio, mineração, transportes, construção civil e o setor financeiro.

A dúvida fica por conta dos bancos, grandes empreiteiras e concessionárias de serviços públicos, que até o começo do presente ano ainda estavam apostando mais no resgate do governo Dilma Rousseff do que na aventura de um novo governo com o vice Michel Temer. Não porque tenham diferenças nas medidas defendidas pelo capital, mas na forma de aplicação do ajuste econômico com mais, ou menos, legitimidade e garantia de controle das ruas.

O que acontece

No entanto, a situação do governo Dilma desandou de tal maneira que o processo de impeachment se tornou uma saída emergencial para recuperar o mínimo de governabilidade e de estabilidade política e econômica. O processo foi vitaminado pela rebeldia da base aliada no Congresso Nacional, pelas investigações da Operação Lava Jato e pela grande mídia comprometida com interesses dos empresários e das classes médias. Todos esses atores operaram na única direção e jogaram pesado no “fora Dilma”, de quebra no “fora Lula” e “fora PT”, mesmo sem ter base sólida e convincente para o afastamento constitucional da presidente. Essa questão ficou em segundo plano depois do amplo consenso por um novo governo.

O PT, que durante muitos anos abandonou os movimentos sociais à própria sorte, teve de se socorrer do MST e do MTST para criar, nas ruas, a possibilidade de reação perdida no Congresso Nacional e nas alianças com o empresariado.

Vale lembrar que nos governos Lula e Dilma a CUT e outras centrais e sindicatos foram deliberadamente domesticados para evitar confrontos com os patrões e aplaudir, sem qualquer senso crítico, as ações e obras do governo, inclusive os bilhões gastos na Copa do Mundo de Futebol – um evento privado e faturado pela FIFA. Os únicos movimentos sociais de abrangência nacional que conseguiram manter alguma autonomia e combatividade, MST e MTST, foram convocados pelo lulismo para dar ao governo Dilma o gesto derradeiro de resistência ao golpe.

Agora, a se confirmar o exílio de 180 dias da presidente Dilma, com o novo bloco de poder capitaneado por Michel Temer no Palácio do Planalto, MST e MTST terão de definir se jogam suas energias no retorno de Dilma, no desgaste do governo de transição de Michel Temer e se miram ou não o novo horizonte que se abre com a articulação de uma grande frente das esquerdas e a construção de uma proposta inovadora para as eleições gerais de 2018.

A não ser que a correlação de forças resulte na explosão da luta de massas, nas ruas, semelhante ao que aconteceu em 2000, na Argentina, capaz de derrubar Temer, Cunha, Renan e exigir eleições diretas já, o que se apresenta no calendário da legalidade democrática institucional é a disputa eleitoral de 2018.

O que fazer

Dificilmente Dilma Rousseff reassumirá a presidência da República. Tudo indica que será cassada ao final do processo, a não ser que antes venha a renunciar. O PT e o lulismo tendem a perder boa parte de suas forças, estarão sob impacto do desgaste do impeachment e das denúncias da Operação Lava Jato. Lula corre sério risco de ser condenado e ficar impedido de se candidatar devido ao envolvimento com as empreiteiras Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e OAS, que assaltaram a Petrobras.

Restará aos petistas e aos militantes do MST, do MTST e demais movimentos sociais da área de influência do lulismo estabelecer nova estratégia de enfrentamento das classes dominantes, seja o repeteco de alianças com a direita ou fazer novo alinhamento no campo da esquerda – com partidos e organizações sociais declaradamente socialistas.

A principal questão é saber se interessa ao PT refazer o rumo com outra proposta de disputa do poder e se consegue retomar a prática de fazer oposição pela esquerda com programa autenticamente transformador. Já que não fez, até hoje, qualquer autocrítica do rumo tomado desde a Carta do Povo Brasileiro, em 2002, e muito menos a avaliação crítica do processo que levou o governo Dilma a sofrer impeachment, tudo indica que o PT tende mesmo a manter prioridade nas alianças com os partidos e forças de centro e de direita, inclusive nas eleições municipais de 2016 – sem levar em conta as forças da esquerda socialista.

A essas forças aparece a oportunidade de constituir, desde já e nos próximos anos, uma grande e sólida frente popular, democrática e anticapitalista não só para combater o governo de transição de Michel Temer, atrair as classes trabalhadoras e a juventude para a militância, mas também para disputar as eleições gerais de 2018 contra o novo bloco de poder marcadamente neoliberal e conservador.

A crise do impeachment abriu espaço para novo rearranjo político e nova correlação de forças no cenário nacional. O processo dialético movimenta a história. As contradições do novo bloco de poder vão aparecer rapidamente. Os trabalhadores e a população que mais demanda a ação do Estado e os serviços públicos vão perceber que o discurso da “salvação nacional” é pura engabelação. Os movimentos sociais populares e partidos de esquerda serão importantes ferramentas para a defesa da grande maioria do povo. A articulação dessa frente de oposição de esquerda depende agora da visão e decisão da militância. O Brasil inaugura nova etapa da luta de classes.

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Hamilton Octavio de Souza é jornalista e professor.


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